IV. Um Prodígio de Nossa Senhora

O Fundador do Seminário dizia freqüentemente: “O Seminário é um prodígio de Nossa Senhora!” Não há dúvida. A trama que a Providência preparou para favorecer a Diocese de Petrópolis pela intercessão de Nossa Senhora do Amor Divino é algo de extraordinário em todas as minúcias.

A viúva do Embaixador Luís Guimarães Filho, Lavínia de Souza Ribeiro era proprietária da Granja São Luís, onde residia, em Correas. Muito piedosa e devota do Santíssimo Sacramento, pretendeu fazer de sua residência um convento de religiosas às quais ela reuniria para adoração ao Santíssimo. Tinha capela em casa, na qual se conservava o Santíssimo e se celebravam missas. Ela alimentou o ideal de viver em comunidade, e conseguiu que viessem da Itália para Correas três “Irmãs Sacramentinas de Bérgamo”. Humildemente, Lavínia entregou a direção da casa a uma das Irmãs italianas.

Não tardou e logo se descobriu um equívoco: o carisma das Irmãs de Bérgamo não era vida contemplativa, e sim que, radicadas na devoção ao Santíssimo , se ocupassem na catequese. O equívoco não ocorreu por culpa de Dona Lavínia, mas pela inexperiência de quem escolheu as religiosas de Bérgamo para fundar a Casa no Brasil. Santo e Providencial equívoco! Desmoronou-se o plano de Lavínia. Na capela de sua residência, rezavam-se na celebração da Missa Padres religiosos: Lazaristas, Franciscanos, Jesuítas e até Padres seculares, por vários anos.

Dona Lavínia continuava rezando para conseguir tornar-se religiosa em sua própria casa... Seis meses depois da visita de Dom Manoel à capela de Nossa Senhora do Amor Divino para pedir auxilio a Maria, a proprietária da Granja São Luíz convidou o Bispo Diocesano a visitar a capela de sua residência, e aí foi o momento da Graça: Lavínia havia mudado de idéia sem preâmbulos, disse a Dom Manoel: “Aqui está, Sr. Bispo, o Salvador Eucarístico. O Seminário é uma obra profundamente eucarística. O Padre realiza-se na Eucaristia... Vou entregar tudo para o Seminário!” E a doação à Diocese foi pronta, total e definitiva, sem condições!

Dona Lavínia entregou imediatamente sua casa ao Sr. Bispo, para que ali, em Correas, fosse quando antes instalado o seminário. Dom Manoel não perdeu tempo. Iniciou imediatamente ligeiras adaptações ao solar da Embaixatriz, onde abriu o Seminário em março de 1949. Na mesma Granja São Luíz, Dona Lavínia passou a residir numa pequenina casa à parte, antes destinada aos empregados. Aí entregou-se mais à oração e se preparou para ingressar no Carmelo de Belo Horizonte, aos 62 anos de idade.

No Carmelo foi exemplar religiosa e faleceu a 23 de setembro de 1968. Sepultada em Belo Horizonte, alguns anos depois seus ossos foram exumados e trazidos por Dom Manoel para a Capela do Seminário em Correas, onde já se encontravam os ossos do embaixador Luís Guimarães.

O Casal Lavínia e Luís Guimarães não teve filhos. Lavínia conseguiu, com suas orações, pela Graça de Deus levar seu marido à prática da religião, com edificante devoção ao Santíssimo Sacramento e à Santa Teresinha. Luís Guimarães faleceu piedosamente a 19 de abril de 1940. Como o casal não tivesse herdeiros necessários, Luís Guimarães, pouco antes de morrer, pediu a Lavínia que todos os seus bens fossem destinados a obras de caridade ou de finalidade religiosa. Foi o que Dona Lavínia fez, com desprendimento total.

Início do Seminário: Festa de Inauguração

No “Livro do Tombo” do Seminário foi anotado: “3 de março de 1949 – Na casa residencial da antiga Granja São Luís, à Estrada União Indústria, 3441, em Correas, 2º Distrito do Município de Petrópolis, generosamente doada pela Exma. Embaixatriz Lavínia Luís Guimarães, teve início, nesse dia, o Seminário Diocesano de Petrópolis, cujo titular é Nossa Senhora do Amor Divino”.

Para a abertura do Seminário, Dom Manoel, que no momento não dispunha de Padres da Diocese para a direção da casa, encontrou dois Sacerdotes que se dispuseram a colaborar para a Casa de Nossa Senhora do Amor Divino entrasse imediatamente em funcionamento.

O admirável é que um dos Padres era petropolitano, mas pertencia à Diocese de Niterói: Padre Gilberto Ferreira de Souza, que foi o primeiro Reitor; o outro, Padre Matheus Nogueira Garcez, era da Arquidiocese de São Paulo e acabava de chegar de Roma, onde cursou Teologia e veio ocupar o cargo de Diretor Espiritual no nosso Seminário, que na primeira matrícula abrigou 23 alunos. Quanto ao corpo docente, foi formado por alguns outros Padres da própria Diocese e também por leigos.

O Seminário foi aberto a 3 de março, no início do ano letivo, mas Dom Manoel Marcou a inauguração solene para o dia 25 de março de 1949, dia da solenidade litúrgica da Anunciação do Senhor e festa a Vigem Maria, titular do Seminário sob a invocação de Nossa Senhora do Amor Divino.

Esta providência do Bispo Diocesano deu-lhe tempo de convidar as pessoas mais ilustres, o clero e os fiéis para assistirem ao lançamento da Pedra Fundamental do novo e definitivo edifício, cuja “maquete” já estava exposta ao público em tradicional casa comercial de Petrópolis. A cerimônia de inauguração solene e da Pedra Fundamental foi presidida pelo Sr. Cardeal Câmara Arcebispo do Rio de Janeiro, e iniciada às 10:30 horas.

Estavam presentes à Cerimônia vários dignitários eclesiásticos, entre os quais Dom Manoel Pedro da Cunha Cintra, Bispo Diocesano de Petrópolis; Dom João Matta de Andrade e Amaral, Bispo Diocesano de Niterói; Monsenhor Francisco Gentil Costa, Vigário Geral de Petrópolis; Monsenhor João de Barros Uchôa, Vigário Geral de Niterói; Padre José Jovita Monteiro Luís, Pároco de Cascatinha e Correas, e vários outros Sacerdotes diocesanos e religiosos.

Importantes autoridades civis e militares compareceram à solenidade: Coronel Osmar Soares Dutra, Comandante do 3º R. I., representante do Senhor Presidente da República Eurico Gaspar Dutra; representante (cujo nome não conseguimos anotar) do Governador do Estado Edmundo de Macedo Soares e Silva; Dr. Flávio Castrioto de Figueiredo e Melo, Prefeito de Petrópolis; Dr. J. Serpa de Carvalho, Promotor Público da Comarca; Dr. Nelsom de Sá Earp, vereador; Jaime Justo da Silva, vereador.

No momento da bênção da “Pedra Fundamental”, foi lida a ata dessa histórica solenidade, assim redigida:

“Aos vinte e cinco dias do mês do ano da graça de 1949, Solene Festividade da Anunciação, Místicos Esponsais da Virgem com o Espírito Santo, sob os carinhosos auspícios da Mãe do Belo Amor, reinando gloriosa e pacificamente S. Santidade o Papa Pio XIII, sendo Núncio Apostólico no Brasil S. Excia. Revma. o Sr. Arcebispo Titular de Amida Dom Carlos Chiarlo, Bispo da Diocese Dom Manoel Pedro da Cunha Cintra, Presidente da República o Exmo. Sr. General Eurico Gaspar Dutra, Governador do Estado o Exmo. Sr. Coronel Edmundo de Macedo Soares e Silva, Prefeito de Petrópolis o Dr. Flávio Castrioto de Figueiredo e Melo, S. Em.a o Sr. Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, do Título dos Santos Bonifácio e Aleixo Arcebispo Metropolitano do Rio de Janeiro benzeu e colocou a primeira Pedra Fundamental deste Seminário Diocesano de Nossa Senhora do Amor Divino, que graças à Extraordinária Munificência da Exma. Embaixatriz Dona Lavínia Luís Guimarães, doadora de todo o terreno, vai erguer-se nesta aprazível colina de Correas, próxima à histórica imagem sob cuja Titular Proteção espera confiante tornar-se Santuário feliz de levitas que, formados no puro Amor de Deus, possam participar do eterno sacerdócio de Jesus Cristo Senhor Nosso."

Na ocasião colocaram-se na urna a ata da solenidade, jornais do dia e moedas em circulação. Abrilhantou a festa a Banda Musical do 3º R. I. e Coral dos Canarinhos de Petrópolis, regido por Frei Leto. Houve salva de 21 tiros em sinal de regozijo pelo faustoso acontecimento.

Foi o início da realização do mais importante plano pastoral de Dom Manoel, que havia escrito em sua Carta de Saudação aos seus Diocesanos: ... “em secreta homenagem Àquela que, sendo Mãe de Deus, é Mãe nossa e nossa Rainha, para junto d’Ela nos ajoelharmos, em sua igreja do Amor Divino, em Correas.

Ali, junto à sua Imagem expressiva e meiga que tem as mãos, não já o Menino Jesus, mas o Espírito Santo, Seu Divino Esposo, por quem consumida de santidade e de amor, concebeu nas puríssimas entranhas o Verbo Eterno, gerando-O para nós, no seu Mistério Augustíssimo da Encarnação”... “Nossas Esperanças e nossos propósitos, nós os colocamos com ilimitada segurança em Seu Coração e Mãe, certos de que sua bondade que nunca nos faltou nos aflitos caminhos da vida, não nos há de faltar agora”.