I. Notas Biográficas

Itinerário de um Herói

Quando o menino nasceu, sua mãe exultou de alegria exclamando: ouçam, os sinos da matriz estão tocando as Ave-Marias! Eram 18 horas na pequenina cidade de Piracáia, interior de São Paulo, e o dia era 11 de novembro de 1906. E o menino recebeu no batismo o nome de Manoel.

Duccio di Buoninsegna, Rucellai MadonnaA vocação Sacerdotal do menino Manoel surgiria na adolescência, orientada pelo missionário capuchinho Frei Vital de Moema. Filho do ilustre casal desembargador Dr. Cândido da Cunha Cintra e D. Antonieta da Cunha Cintra, o jovem Manoel estudou no seminário menor de Botucatu, dirigidos pelos Padres Lazaristas, e onde chegou a iniciar os estudos de Filosofia. Distinguido por invulgar inteligência, dedicação ao s estudos e pela firmeza na vocação. Foi enviado por seu Bispo Diocesano a Roma, onde, sendo aluno do Colégio Pio Latino Americano, freqüentou a Pontifícia Universidade Gregoriana, cursando Filosofia e Teologia, doutoro-se em ambas as faculdades.

Desde muito jovem, habituou-se a assinar o próprio nome por extenso: Manoel Pedro da Cunha Cintra. No dia 26 de outubro de 1930, em Roma, ordenado sacerdote, sua assinatura, já tão longa, cresceu mais: passou assinar Padre Manoel Pedro da Cunha Cintra.

O neo sacerdote regressou ao Brasil em 1931, iniciando seu apostolado na Catedral de Cafelândia, nomeado Cura da Fé e Consultor Diocesano.

Padre Manoel foi sempre muito devoto a Nossa Senhora. À Mãe de Deus ele confiou todo o seu apostolado, certamente com muitas orações e especiais sacrifícios de devoção. Talvez se possa reunir a orientação de sua vida sacerdotal nos versos do poeta Marcondes Verçosa, em poesia que este dedicou a Maria Santíssima:

“Que o bem seja a minha única conquista, Que eu veja em cada estranho um meu irmão, Que eu não pratique um ato de injustiça, Que eu não recuse um gesto de perdão.”

A partir da catequese, principalmente nas escolas, Padre Manoel dirigia atenção aos meninos, possivelmente vocacionados ao sacerdócio; ele tinha o dom de descobrir e amparar vocações, sempre seguro de que, mesmo entre as traquinadas infantis, não seria difícil notar em alguns alunos o razoável senso de responsabilidade, como foi o caso de um menino japonês.

O pequeno japonês chamava-se Massarú Kondó; sua família recém-chegada ao Brasil não era cristã, mas o Padre Manoel soube observa-lo com especial interesse. Em pouco tempo o japonês estava preparado para receber o Batismo e a Primeira Comunhão, e logo tornou-se apóstolo de sua família e entre outras crianças filhas de japoneses.

Nascido no dia 6 de junho, Massarú recebeu no batismo o nome de Norberto: tornou-se Norberto Massarú Kondó. Pouco tempo depois, Padre Manoel encaminhou-o para o Seminário de Botucatu, e, em 1939, foi estudar Filosofia e Teologia no Seminário Central da Imaculada Conceição do Ipiranga em São Paulo, onde o Padre Manoel já residia como professor desde 1936, e onde foi Reitor por oito anos com trabalho de alta relevância no cultivo das vocações sacerdotais, entre 1940 e 1948, ano em que foi eleito Bispo de Petrópolis.

Em 1945, Norberto Kondó foi ordenado sacerdote para a Diocese de Lins; ai começou grande atividade apostólica, sem esquecer os seus patrícios: construiu o grande Santuário de Nossa Senhora de Fátima, construiu a ampla Igreja do Sagrado Coração de Jesus, orientou a construção da capela no Batalhão do Exército, onde instruía soldados para a recepção dos Sacramentos do Batismo e da Crisma e principalmente da Eucaristia. O Padre Manoel poderia dizer o que disse São Paulo: “Gaudium meum et corona”, dirigindo-se aos Filipenses (Fl 4,1) – Minha alegria e minha coroa; mas estavam-lhe destinadas outras alegrias e outras coroas de glórias além das que lhe dera o Padre Norberto.

Na reitoria do Seminário do Ipiranga o Padre Manoel Cintra mostrou toda sua preocupação constante e decisiva na formação dos Sacerdotes: apontava falhas para corrigir e qualidades para desenvolver. Exigia a transparência e a docilidade no procedimento dos alunos e observava a vida de todos para orienta-los com segurança. Era o homem da firmeza nos princípios a enaltecer sempre as razões da Fé. Repetia com muita freqüência a palavra de São Paulo a Timóteo: “Pietas ad omnia utilis est”(1 Tm 4,8) que ele pedia licença para traduzir: “Tudo depende da Piedade”.

Em agosto de 1944, chegou a notícia de Roma: o Santo Padre Pio XII nomeou Monsenhor Manoel Pedro Cunha Cintra Visitador Apostólico dos Seminários do Brasil. Continuou como Reitor do Ipiranga, mas logo no início de 1945 deu-se ao seu novo e ingente trabalho. Percorreu todo o imenso território brasileiro inteirando-se da real situação dos Seminários para levar à Santa Sé informações precisas.

No dia 9 de janeiro de 1948 foi publicada a nomeação de Monsenhor Cintra para Bispo da Nova Diocese de Petrópolis; sagrado a 28 de março, Dom Manoel Pedro da Cunha Cintra tomou posse de sua Diocese a 25 de abril de 1948. Era um novo campo de trabalho para o mesmo herói do serviço à das vocações sacerdotais.

Petrópolis foi o mais novo e amplo desafio para Dom Manoel: a Diocese não tinha patrimônio, não tinha Seminário nem recursos com que pudesse adquirir terreno onde construí-lo. O clero era constituído de Sacerdotes religiosos de quatro Ordens: Franciscanos, Lazaristas, Premonstratenses e Missionários dos Sagrados Corações, ocupados de oito Paróquias. O total era de 18 Paróquias e das dez que deveriam ser atendidas por Padres Seculares só seis estavam provisionadas e as outras quatro anexadas. Diante da realidade tão pouco favorável, Dom Manoel, como era de esperar, apelou para a oração, e para a organização, pois contava com uma surpreendente figura do Clero Secular, o seu Vigário Geral Monsenhor Francisco Gentil Costa.

Em suas horas tranqüilas Dom Manoel ouvia o eco da ordem insistente de Pio XII: “é preciso construir o Seminário!”

Construir!... Como? Do nada? Há uma solução, pensou Dom Manoel: vou recorrer a Nossa Senhora do Amor Divino. E diante da imagem de Nossa Senhora, a mais de duzentos anos venerada em Correas, o Bispo de Petrópolis ajoelhou-se e pediu auxílio. Maria atendeu prontamente a Dom Manoel que, antes de completar um ano em Petrópolis, em março de 1949, abriu o Seminário aos primeiros 23 alunos instalados na mansão da Granja São Luís, em Correas, com vasta área de terreno, onde iria construir o futuro definitivo prédio.

A Granja São Luís foi recebida em doação feita pela benfeitora Embaixatriz Lavínia Guimarães. Doação espontânea, sem qualquer condição, com posse imediata de tudo o que se encontrava na granja... D. Lavínia desejava apenas que fosse construído o seminário...

Parecia um sonho! Dom Manoel “exultavit sicut gigas ad currendam viam” (Sl 18 A), que na perfeita tradução do Padre Leonel Franca significa: exultou como um herói para percorrer o seu caminho. Organizou imediatamente na Diocese a Associação da Obra das Vocações Sacerdotais: convocação geral em toda a Diocese, ao tempo, de vasto território, porém ainda pouco populosa. Os sócios que em poucos anos ultrapassaram os 12 mil, obrigavam-se a rezar pelas vocações e a recolher contribuições para construção do Seminário. Esse movimento e o despertar de muitos benfeitores que Deus providenciou tornaram possível a construção do Seminário. Em dezembro de 1952 foi inaugurada metade da construção e em agosto de 1956. Todo o edifício estava concluído inclusive a capela que mereceu maiores cuidados.

Aos 92 anos de idade, 68 anos de Padre, 51 anos de Bispo, faleceu, no Seminário, em Correas, o Herói do movimento Vocacional. Sua última Missa foi concelebrada a 25 de março de 1999, em Ação de Graças pelos 50 anos de Fundação do Seminário, Dom Manoel faleceu em 30 de março de 1999, pouco depois de ter ouvido o sino do Seminário soas as Aves-Marias das 18 horas.