VII. Exemplo Valiosíssimo: Espírito de Pobreza

Em toda a sua longa atividade pastoral, Dom Manoel foi exemplo de todas as virtudes.

No espírito de pobreza, porém, levado à prática em todas as situações, distinguiu-se admiravelmente aos olhos de todos os colaboradores que conheceram.

A necessidade urgente de fundar e construir a casa de Formação do Clero em sua Diocese, levou-o a destinar todos os recursos que chegavam às sua mãos para obra principal que o Santo Padre lhe havia recomendado.

Nos balancetes da OVS, que fazia publicar mensalmente na revista diocesana “Ação”, aparecem, freqüentemente, em meio às contribuições da paróquias e dos benfeitores para a construção e, posteriormente, para a manutenção do Seminário, os seus donativos anônimos, além de muitos outros cujos nomes dos doadores revelava, porque lhe haviam sido entregues “para os pobres”.

Sua mesa diária era bem pobre; refeições simples, fugais, porque amava a pobreza, não porque fosse poupador inveterado. Seu cardápio modificava-se para melhor, quando ocorria chegar algum sacerdote e era convidado a almoçar na residência episcopal.

Se fosse visita mais ilustre, Nuncio Apostólico, algum colega de episcopado ou seus parentes, então oferecia um pequeno banquete... com o melhor vinho que pudesse encontrar para o momento.

No tempo em que ainda era Visitador Apostólico dos Seminários do Brasil, viajou algumas vezes à Europa, principalmente para apresentar-se à Santa Sé, à qual entregara relatório de suas atividades. Nessas oportunidades aproveitou para encomendar as imagens que vieram para a capela e para o vestíbulo do Seminário; conseguiu também com seus antigos bispos conhecidos, principalmente da Itália, sacerdotes que vieram trabalhar na Diocese de Petrópolis.

Antes de iniciar essas viagens, na reunião geral do Clero, realizada mensalmente, sempre avisava aos padres e fazia questão de esclarecer que já havia conseguido os recursos para as despesas da viagem, não fosse alguém menos avisado pensar em que o Bispo seria pesado à Diocese.

Até mesmo donativos que lhe faziam “intuitu personae” por ocasião de visitas, espórtulas de Missas ou ofertas por ocasião de Crismas, Dom Manoel destinava tudo para o Seminário; quando a quantia era maior e sobressaía entre as outras, fazia constar no balancete que o Donativo era da Cúria Diocesana.

Ao tomar posse da Diocese em 1948, Dom Manoel encontrou um carro novo, americano, com placa oficial, que Mons. Gentil havia conseguido com seus amigos para uso do Bispo, tendo também providenciado o motorista. Esse carro foi usado por Dom Manoel durante mais de 15 anos, em todo o serviço necessário.

Depois de alguns pequenos acidentes e do natural desgaste, Dom Manoel resolveu trocar de carro. Passou a usar carros nacionais, sempre dos modelos mais simples, comprados com seus próprios recursos e que ele mesmo dirigia.

Teve sucessivamente: Corcel, Wolkswagen (fusca), Voyage e Escort.

Após a morte de seus pais, Dom Manoel e seus quatro irmãos receberam a parte da herança que cabia a cada um. Não era uma grande fortuna, mas algo nada despresível e, por isso, o Seminário passou a ser mais presenteado pelo seu fundador.

Em 1984, tornando-se Bispo Emérito de Petrópolis, Dom Manoel escolheu o Seminário para sua residência, onde lhe prepararam com esmero um apartamento duplo, com pequena capela em que rezava a Missa diariamente. Estava com 77 anos de idade.

Acomodado na Casa que ele tanto amava, animou-se ainda para ser professor dos seminaristas, e lecionou durante 14 anos Doutrina Cristã, Introdução à Filosofia e Teologia Espiritual.

Prudentemente, antes que suas forças físicas e mentais se reduzissem, tratou de fazer seu Testamento, no qual deixou tudo muito claro, sem condições:

Tudo para o Seminário.

Na vida terrena, Dom Manoel orientou-se pela primeira das Bem-aventuranças evangélicas (Mt 5,3), na qual Jesus promete o Reino do Céu já assegurado na vida presente, pois diz:

“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino do Céu”... Não diz como em outras bem aventuranças nas quais emprega o verbo no futuro: os mansos possuirão a terra; os que choram serão consolados; os que têm fome e sede de justiça serão saciados; os misericordiosos alcançarão misericórdia; os que têm coração puro, verão a Deus; os pacíficos serão chamados filhos de Deus...

E assim, o Fundador do Seminário Nossa Senhora do Amor Divino, na medida em que pôde, enriqueceu-o de bens materiais e muito mais o enriqueceu pelo espírito de pobreza. Foi um exemplo perene; mais do que perene, eterno.

Horácio, o poeta latino, pagão esperava nos seus versos a perenidade, dizendo: ergui um monumento mais perene que o bronze (“exegi monumentum aere perenius”), e previa que sua memória seria imorredoura:

“nonomnis moriar”. O Fundador do Seminário, ele mesmo em pessoa foi o exemplo perene de vida cristã cujo valor ultrapassará infinitamente a memória que o poeta esperou.

Perene o espírito de pobreza, porque envolve o coração humano revestindo-o do Amor de Deus, pelo respeito ao ensinamento de Jesus Cristo:

“Não podeis servir à Deus e às riquezas” (Mt 6,24). Pelo exemplo de desapego aos bens terrenos, por seu amor a Deus e ao Seminário Dom Manoel, lá da “interminabilis vitae tota simul et perfecta possessio” (S. Tomás de Aquino), continua a edificar a Casa de Formação dos sacerdotes, até mesmo pelo auxílio material provenientes de bens rentáveis, que generosamente legou ao Seminário.

De certo modo, numa versão de Amor, parece a realização da passagem escriturística: “defunctus adhuc loquitur” (Hb 11,4)... ainda nos fala depois de morto!

Dom Manoel Pedro da Cunha Cintra, primeiro Bispo de Petrópolis, Fundador do Seminário Diocesano, devoto de Nossa Senhora do Amor Divino continua a falar-nos pela Fé, pelo Amor à Pobreza.