II. Bispo de Petrópolis

Origem da devoção à Nossa Senhora do Amor Divino

A Família Correia

Para escrever a “Carta Pastoral de Saudação aos seus Diocesanos e sobre as Vocações Sacerdotais”, Dom Manoel inteirou-se sobre a história de Petrópolis e particularmente sobre a devoção a Nossa Senhora na região petropolitana.

A estrada aberta na Serra da Estrela por Bernardo Soares de Proença, no século XVIII, atraiu para a região serrana o casal português Manoel Antunes Goulão e Caetana de Assumpção com sua filha única Brites Maria de Assumpção Goulão. Em terras vizinhas às da fazenda do referido casal, no Rio da Cidade, vivia o jovem Manoel Correia da Silva, português, solteiro, nascido na Guarda, que se casou com Brites de Assumpção Goulão, portuguesa de que nasceram seis filhos. Toda a família era devota de Nossa Senhora do Amor de Deus.

Em outubro de 1749, Manoel Antunes Goulão pediu licença à Câmara Eclesiástica do Rio de Janeiro para edificar uma capela em sua fazenda, dedicada a Nossa Senhora do Amor de Deus. Obtida a licença, a capela foi construída e inaugurada em 1751. Acredita-se que a imagem da padroeira dessa capela veio de Portugal para a inauguração da pequena capela.

A fazenda era próspera, a capela muito freqüentada e a proteção de Nossa Senhora era manifesta. Por volta de 1782, seus responsáveis Manuel Correia da Silva e filhos resolveram mudar a sede da fazenda para o local onde hoje se encontra o Colégio Padre Correia; foi motivo da mudança a vantagem de ficar mais próxima da nova estrada para as Minas Gerais (conhecida pelo nome de “mineira”).

Junto à nova sede da fazenda, o Padre Correia, que por morte de seu pai Manuel Correia, assumiu a administração de toda a propriedade, construiu a capela de Nossa Senhora, que ainda existe e é tombada pelo Patrimônio Histórico. No fim do século XVIII, a capela é referida em todos os documentos eclesiásticos com o título de Nossa Senhora do Amor Divino, talvez por expressão mais popular, perfeitamente correta.

Em suas obras tranqüilas, nos primeiros dias em Petrópolis, Dom Manoel ouvia o eco da ordem dada por Pio XII: “É preciso construir o seminário!”... Construir!... Como? Do nada? Há uma solução, pensou o Bispo de Petrópolis: vou recorrer a Nossa Senhora do Amor Divino! A Diocese não tinha patrimônio, mas tinha a proteção da Mãe de Deus. Dom Manoel foi visitar a capela de Correas, não a da fazenda, mas a da Vila que hoje é sede da Paróquia local e foi construída pelo povo, inaugurada em 1933, quando recebeu em seu altar a tradicional imagem de Nossa Senhora do Amor Divino. Ali diante da imagem da Mãe de Deus, Dom Manoel se ajoelhou, pediu auxílio e foi atendido prontamente.

O casal Manuel Correia da Silva e Brites Maria de Assumpção Goulão, residente nas vizinhanças do Rio da Cidade, herdaram a fazenda do falecido Manoel Antunes Goulão, onde fora construída a primeira capela dedicada a Nossa Senhora do Amor de Deus, posteriormente designada nos documentos eclesiásticos pelo nome de Nossa Senhora do Amor Divino.

Manuel Correia e Brites Maria tiveram seis filhos: três meninos e três meninas. São eles: Luisa, Luiz Joaquim Correia, Agostinho Correia Goulão, Maria Brígida, Antonio Tomaz de Aquino Correia e Arcangela Joaquina Correia. Os filhos homens não deixaram descendência na família Correia: Luiz Joaquim Correia foi estudar em Coimbra, formou-se e radicou-se em Portugal, sem que se tenha qualquer outra notícia dele. Agostinho Correia Goulão estudou e doutorou-se em Portugal, voltou ao Brasil e permaneceu solteiro, falecendo em sua fazenda de Santo Antonio da Soledade, com sede na estrada que vai de Itaipava a Teresópolis. Antonio Tomaz de Aquino Correia estudou no Rio de Janeiro, ordenou-se sacerdote. Encarregou-se do serviço religioso na região, e a partir de 1784, quando seu pai morreu, tornou-se o responsável pela fazenda, a que o povo se referia como “Fazenda do Correia”, mais tarde “Fazenda dos Correias”, porque surgiram outros descendentes com o mesmo sobrenome, netos de Manuel Correia cujas três filhas foram casadas.

A primeira filha Luisa Correia faleceu sem deixar descendência. A segunda filha Maria Brígida Correia casou-se com Pedro Gonçalves Dias e teve cinco filhos. A filha mais nova Arcangela Joaquina casou-se com José da Cunha Barbosa. Teve sete filhos. Quando faleceu seu irmão, o Padre Antonio Tomaz de Aquino Correia, a 19 de junho de 1824, D. Arcangêla passou a ser a única responsável pela fazenda dos Correias.

A família iniciada com Manuel Correia e Brites Maria, no Rio da Cidade, foi abençoada por Deus com várias vocações sacerdotais. Para exemplificar, anotamos os nomes dos sacerdotes que aparecem nos livros de batizados, de casamentos e de óbitos, entre 1781 e 1810: Padre Antonio Tomaz de Aquino Correias, Padre Luiz Gonçalves Dias Correia (foi o primeiro Vigário de São José do Rio Preto e depois primeiro Vigário de Petrópolis, em 1846) Côn. Alberto Correia da Cunha Barbosa (filho de D. Arcangela), Padre Januário da Cunha Barbosa (neto de D. Arcangela, foi Cônego e Cura da Capela Imperial no Rio de Janeiro) e Padre João Gonçalves Dias Correia Goulão (filho de Brígida Maria Gonçalves Dias, e neto de Maria Brígida de Assumpção Correia, dona da fazenda do Belmonte, que hoje é conhecido por Alcobaça).

Ainda outro sacerdote surgiu na família Correia, e este o mais ilustre até hoje conhecido. Nasceu em Cuiabá (MT): é Francisco de Aquino Correia. Assim se explica o fato de haver nascido na região oeste: Joaquim Correia Gonçalves Dias, neto do patriarca Manuel Correia, filho de Pedro Gonçalves Dias e Maria Brígida de Assumpção Correia, transferiu-se de Correas, onde nasceu, para as terras da região oeste e centro oeste, onde veio a falecer em 1840. Embora não tenham dados preciosos, esse Joaquim Correia terá sido avô do menino que veio a ser sacerdote, nascido em Cuiabá em 1885.

Este menino, Francisco de Aquino Correia, tornou-se Padre Salesiano ordenado em 1909, foi sagrado Bispo em 1915 e foi Arcebispo de Cuiabá, de 1921 a 1956. Grande orador sacro e poeta, Dom Francisco de Aquino Correia pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

Convém notar-se que as pessoas da família Correia assinavam o próprio nome indiferentemente Correia ou Correas; o Arcebispo de Cuiabá sempre assinou Correa.

Não há duvida que a devoção a Nossa Senhora do Amor Divino na família Correia foi abençoada com muitas vocações sacerdotais. Mas, sem duvida, Nossa Senhora estava a espera do primeiro Bispo de Petrópolis para ser ainda mais generosa em bênçãos de vocações: Nossa Senhora quis em Correas um Seminário que lhe fosse dedicado, e que viria a ser realidade pela atuação apostólica de Dom Manoel Pedro da Cunha Cintra.