V. A construção do novo Edifício

Terminada a festa da “Pedra Fundamental”, as máquinas e terraplanagem entraram em ação: foi necessário cortar grande parte do morro junto ao qual se ergueria o futuro novo edifício do Seminário. O início da obra daria grande impulso ao abençoado trabalho da OVS na Diocese.

Petrópolis era uma Diocese de vasto território, em 1948: abrangia cinco municípios completos e mais algumas Paróquias nos Municípios de Três Rios e de Paraíba do Sul. A população, relativamente pequena, começou logo a apresentar a dita “explosão demográfica”, mormente na região da baixada.

Dom Manoel tinha na Diocese poucos Padres: os diocesanos seculares não passavam de 10; os religiosos, um pouco mais numerosos, nem sempre estavam à disposição da Diocese. A solução provisória foi recorrer a outras Dioceses:

Dom Manoel convidou e conseguiu Padres seculares de várias Dioceses do Brasil e da Europa. Problemas de toda a ordem, que o Bispo devoto de Nossa Senhora do Amor Divino resolvendo com tranqüilidade a perseverança:

Criação de novas paróquias, visitas a pastorais prolongadas, assistência particular às Associações que mais se empenhavam no apostolado (Filhas de Maria, Congregados Marianos, Liga Católica, Apostolado da Oração, Obra das Vocações, Cruzada Eucarística Infantil). Constantemente empenhado na construção do Seminário, Dom Manoel estava sempre ao par de tudo o que se passava nas paróquias; por vezes tinha que lamentar, quando algum Sacerdote não cumpria seu dever de pastor zeloso na Paróquia, e dizia: “pior do que faltar Padre é sobrar Padre”, porque aquele que não cumpria o seu dever... estava sobrando! No caso, o Bispo nunca duvidou em afastar o “inadimplente”.

Iniciaram-se as obras do Seminário na antiga Granja São Luís. Dom Manoel, ao lado das preocupações com as despesas sempre mais vultosas, tinha especial motivo para espairecer depois do almoço: todos os dias dirigia-se a Correas para ver a obra sair do chão. Como o terreno havia sofrido grande corte de preparação, alguém teve a infeliz idéia de espalhar em Petrópolis a possível ruína da obra com as fortes chuvas de verão... vai descer tudo morro abaixo! Qual nada! A cassandrice falhou.

Seriam 4.500m2 de construção. A obra estava orçada em 20 milhões da época. As contribuições do povo, não faltavam, mas entravam como que a conta-gotas; porém a Mão de Deus tudo providenciava para que nada faltasse. Embora parcos os recursos financeiros, eram extraordinários os donativos e contribuições em material de construção. Oportunamente , Monsenhor Gentil, o Vigário Geral de todas as horas, teve ocasião de informar a uma assembléia geral da OVS: “Coisa admirável! A despesa coma mão-de-obra superou a despesa com o material!”

Iniciada ao obra com plena confiança na Divina Providência, iria até o fim sem interrupção. A cada dia chegavam donativos, às vezes para resolver situações difíceis, e não raro anônimos como foi o caso de uma pessoa que telefonou à noite para Dom Manoel, sem identificar-se, para doar 200 mil cruzeiros, exatamente a quantia necessária no momento para que a construção não fosse interrompida.

A antiga residência de Dona Lavínia, ligeiramente adaptada para receber os primeiros 23 seminaristas, foi ficando pequena para acomodar os alunos: 23 em 1949, 49 em 1950, 60 em 1951... E o novo prédio estava no esqueleto! Foi necessário acelerar as obras, de modo que ao menos uma parte, menos da metade do projeto, pudesse ser inaugurada em dezembro de 1952, porque no início de 1953, o Seminário estava para escolher 60 jovens candidatos. Ao ser concluído, o edifício seria um harmonioso conjunto colonial de três pavimentos em forma triangular, quase um triângulo isósceles, no qual, onde ficaria o ângulo formado pelo encontro dos lados iguais, estaria erguido o vestíbulo majestoso, porta central, frontispício encimado pela cruz, cornijas em realce, elegantes, espelhando a grandeza da finalidade a que se destinava a Casa Rosa de Nossa Senhora do Amor Divino. Clima de montanha, visão ampla das alturas, como um convite permanente à realização sadia do Reino de Deus.

No início de 1951, ficou decidido que seria terminada a primeira ala mais ao norte, na qual ficaria a cozinha, o refeitório, um dos dormitórios, algumas salas de aula, quartos para Padres, enfermaria e outras dependências. Espaço suficiente para abrigar 60 estudantes do Seminário menor. A inauguração dessa ala foi marcada para o dia 8 de dezembro de 1952.

Faltava ainda mais da metade para a conclusão do edifício, mas a Casa Rosa já se destinguia entre a mata de Correas como um diamante raro engastado na montanha.

Nenhuma obra é bonita quando está sendo construída; a do Seminário não foi diferente, embora já se mostrasse alegre na parte inaugurada em 1952. Ao seu lado erguia-se um emaranhado de andaimes que, à época, eram verdadeiros “simples”, como diria Alexandre Herculano. A visão pouco agradável porém, não era a pior: a fase da construção é que mais preocupava. Corria-se o risco de, com a demora, o desânimo viesse a dominar os colaboradores, envolvidos já na espiral inflacionaria que começava a despontar no Brasil.

A construção do Seminário prosseguia sempre no mesmo ritmo: escasseavam recursos, surgiam novos benfeitores com os mais necessários donativos, e assim foi até o fim, quando foi necessário o maior cuidado na construção da capela, a parte mais digna da Casa de Formação dos futuros Sacerdotes.

Dom Manoel cuidou pessoalmente de mandar fazer na Europa três imagens: a Nossa Senhora do Amor Divino, para o grande nicho acima do altar-mor, esculpidas por um grande artista italiano, residente em pequenina cidade próxima de Milão, na Itália; fora do Presbitério, em altares laterais, um de cada lado, ficaram as outras duas imagens, igualmente de madeira: uma do Sagrado Coração de Jesus e outra de São José; ambas encomendadas a artistas espanhol, em Barcelona, na Espanha. Artisticamente perfeitas, teologicamente exatas, as três imagens são de pintura rica. A imagem de Nossa Senhora, sem o valor histórico da original que se encontra na Igreja Matriz de Correas e é perfeito modelo barroco, impressiona pela beleza, como se harmonizasse em si todos os Privilégios de Maria Mãe de Deus – Ela inspira piedade e poesia:

É tão bom olhar de perto Essa imagem singular, – Senhora do Amor Divino – Que nos convida a rezar: Tem a face da Senhora Imaculada, Tem o triunfo da Senhora da Assunção, Tem manto em dobras douradas, E místico olhar de Mãe... Tem coroa de Rainha, E a graça de Deus nas Mãos: Senhora do Amor Divino, Senhora, Nossa Senhora, Que o povo cristão venera... Olhos cheios de ternura, Ela até me afigura Imagem do Céu na terra...

A capela, que é a jóia da Casa, é interna e integrada no conjunto. Com três portas iguais ela traça, no altar ao térreo, a linha do lado oposto ao vértice do ângulo formado pelos dois lados iguais. Seu traçado é original. Dificilmente o observador leigo conseguirá calcular-lhe a área útil: mais ou menos 520 m2, de pé direito bem alto, pintada predominantemente em azul claro, com todos os realces brancos nos arcos do presbitério e dos altares laterais, e no teto. Sempre recolhida: à noite, tem iluminação indireta; de dia tem a claridade piedosa da luz solar filtrada através de dois grandes vitrais, em dimensões impressionantes.

Um dos vitrais apresenta com cores harmoniosas o desenho do Seminário e a figura de Jesus Cristo acolhendo seminaristas e candidatos ao ingresso na Casa de Formação Sacerdotal: na parte inferior lê-se a frase, em latim, Venite, Ego Elegi Vos... Vinde, Eu vos Escolhi. Este vitral foi dado pelo Dr. Arnaldo Guinle, que também ofereceu tijolos fabricados em sua cerâmica em Bemposta.

O outro vitral apresenta Jesus Cristo num largo gesto, em meio a um trigal ondulante, indicando aos jovens o caminho do apostolado: na parte inferior lê-se a frase, em latim, Messis quidem multa operari autem pauci, palavras que lembram a ordem de Jesus para que pedíssemos a Deus as vocações Sacerdotais, pois “A messe é grande, mas poucos são os operários” (Mt 9,37).

Os inspirados desenhos nos vitrais são do renomado artista brasileiro Prof. Carlos Oswald, e quem os executou foi J. Giraldi, em Petrópolis. A capela foi a última parte que se concluiu no edifício, cujo projeto foi do arquiteto Dr. Oséias Otávio Vilela de Andrade; realizado na íntegra, mereceu a rápida e expressiva descrição de Dom Manoel: “As galerias dos três andares no pátio interno, leves e distintas, marcam o ambiente da Casa com a tonalidade clara e jovial em que vivem as almas puras e felizes dos candidatos ao sacerdócio. A capela sóbria e recolhida, com tabernáculo do Santíssimo Sacramento e com a imagem belíssima da Virgem do Amor Divino, no nicho central”.

Galerias amplas, salão de atos, dormitórios, apartamentos para sacerdotes, salas de visitas e de aulas claras e arejadas, e tantas outras dependências... tudo estava pronto para a inauguração definitiva no dia 15 de agosto de 1956. A obra completa estava orçada em 20 milhões de cruzeiros, moeda da época; aconteceu que no final custou à Diocese 11 milhões e quinhentos mil cruzeiros, porque:

Um edifício amplo que a Caridade construiu Porque milhares de mãos se estenderam E milhares de mãos não se encolheram, negando, Mas se abrindo sorrindo. E o gesto de amor, começado continuou. Deram mais, aqueles que mais receberam, E deram menos aqueles que menos tinham; Deram todos o que tinham para dar.

A revista da Diocese de Petrópolis “Ação”, nº 109, em agosto de 1956, publicando um Relatório Geral da Construção do Seminário de 1949 a junho de 1956, registrou os nomes de todos os contribuintes e benfeitores, nomes que ficarão para sempre, ainda que a revista desapareça, porque todo o gesto de amor tem um colorido de eternidade.

No dia da inauguração final do Seminário, foi divulgado o Relatório Geral de todas as contribuições em dinheiro. Esse relatório é minucioso, apresentando a ordem dos ofertantes em ordem decrescente, do mais elevado ao mínimo. Trabalho escrupulosamente perfeito. No final, o balancete simples e claro: Receita e Despesa – R = Cz$ 11.483.007,30 – D = Cz$ 11.853.853,20.

Havia o débito de Cz$ 370.845,90. O entusiasmo na Diocese pela conclusão da obra facilitou zerar o débito, pouco depois.

Em Carta Circular datada de 16 de julho de 1956, Dom Manoel comunicou aos maiores benfeitores, ao clero e ao povo em geral, que o Seminário estava pronto: convidava a todos para a inauguração final no dia 15 de agosto de 1956. Agradeceu a todos, citando os que mais colaboraram generosamente: Embaixatriz Lavínia Guimarães, Dr. Guilherme Guinle, Dr. Mário de Almeida, Carolina da Silva Ramos, Celina Guinle de Paula Machado, Dr. Júlio Cápua e Sra., Albertina da Rocha Miranda, Hortência da Silva Ramos, Dr. Arnaldo Guinle.

Referindo-se à colaboração do Clero, o Bispo Diocesano declarou “efusivos e paternais agradecimentos”. Citou alguns padres e referiu-se de modo muito especial ao Diretor da OVS Monsenhor Gentil Costa, Vigário Geral: “À frente do Revmo. Clero divisamos a figura incansável de Monsenhor Gentil Costa, nosso cirineo de todas as horas, não só nas atividades da OVS, como na campanha, já demorada da construção do Seminário. Sobre todas as benemerências que o consagraram na Igreja Catedral e na criação do Bispado, avulta por certo esta de haver atuado de modo decisivo nesta realização grandiosa”.

Sempre de coração agradecido, Dom Manoel escreveu também na referida Carta Circular: “Somos agradecidos à Firma Afonso Monteiro da Silva e Cia. Ltda. o primoroso projeto do arquiteto Dr. Oséias Otávio Vilela de Andrade e por haver supervisionado o decurso da Obra com eficiente assistência técnica. “Referiu-se também às contribuições dos Poderes Públicos: Três milhões e quatrocentos e trinta mil cruzeiros do Governo Federal, quando era Presidente o Dr. Getúlio Vargas; e oitocentos e cinqüenta e cinco mil cruzeiros do Governo Estadual, sendo Governador a Almirante Ernani do Amaral Peixoto. Assinalamos essas dotações, notando a apreço que mereceu das nossas mais altas Autoridades a construção do Seminário. “Infelizmente (escreveu Dom Manoel) não podemos dizer outro tanto dos Poderes Públicos do Município; eles desconheceram o alcance, já não dizemos espiritual e religioso, mas educacional e social do Seminário, recusando durante seis anos o menor auxílio para obras”.

Foi um desabafo, um tanto amargo, mas, sem dúvida, necessário para que não viesse a contar-se na história que o Bispo, tendo agradecido todos os colaboradores, omitira exatamente a dotação do Município de Petrópolis, o mais beneficiado com a construção do Seminário.

Na lista das pessoas que contribuíram com vultosas quantias Dom Manoel distinguiu em primeiro lugar Dona Hortência da Silva Ramos que ofereceu 865 mil cruzeiros: “que nosso Senhor abençoe tão insigne benfeitora!”

Outros grandes benfeitores houve que, além de contribuírem com considerável soma em dinheiro, auxiliaram notadamente a construção com material necessário nos momentos mais importantes da obra: Dr. Júlio Cápua e Exma. Sra. Que doaram todos os tijolos de cimento, esquadrias e tubos de betonitte e ainda o piso do vestíbulo em fina marmorite. Dr. Arnaldo Guinle e Exma. Sra. Doaram o vitral em que aparece o Seminário e sobre o qual adeja a figura do Divino Espírito Santo; doaram também grande quantidade de tijolos. A Exma. Família Guinle doou outro vitral em que Jesus aparece no trigal, indicando o campo de trabalho apostólico aos levitas e grande anjos volitam no céu, sob o monograma de Nossa Senhora.

Dona Hortência da Silva Ramos doou a imagem do Sagrado Coração de Jesus, obra artística de pintura rica, que está num dos altares laterais da capela. Dona Carolina da Silva Ramos doou a imagem de São José, igualmente artística e rica que ocupa o outro altar lateral. Ambas as imagens foram talhadas em madeira por renomado artista de Barcelona, na Espanha.

Distinguiu-se ainda como grande benfeitor na construção do Seminário o Dr. José Armando Souza Ribeiro que ofertou todas as ferramentas utilizadas na obra.

Na capela, em que tudo foi providenciado com esmero, nota-se também a “Via-Sacra”: quadros de madeira, figuras em relevo, coloridas e a indicação das “Estações” escrita em português; fabricada na Itália. Por fim, lambris de madeira em toda nave. Outra parte da construção feita com muito capricho foi o vestíbulo, no qual Dom Manoel colocou sob o pedestal de madeira uma grande imagem de Jesus Cristo que tem a cabeça ligeiramente inclinada e os braços estendidos, como quem acolhe os visitantes; esta imagem te aproximadamente três metros de altura, é de pintura rica, de madeira com arremates de massa: foi encomendada em Barcelona, na Espanha.

Quando se preparava o vestíbulo, alguém deu a idéia de que ali se colocasse alguma coisa para lembrar o fundador do Seminário: retrato ou busto de bronze... Dom Manoel declinou da homenagem. No vestíbulo foram colocadas duas clarabóias, com acabamento na moldura em linhas do estilo colonial; uma de cada lado da porta principal; nos vidros coloridos vê-se, de um lado o desenho de uma tiara, que representa o tríplice poder do Papa na Igreja, e do outro lado o desenho uma Mitra, símbolo da dignidade episcopal. No relatório final das contribuições para a construção do Seminário nenhum dos contribuintes foi esquecido.

Dom Manoel agradeceu o Clero e aos leigos, especialmente às chamadas “Patronesses” e “Legionárias” grupo de senhoras e moças que entre 1949 e 1956, em diversas campanhas, conseguiram mais de três milhões de cruzeiros.

O relatório indica também as Paróquias que contribuíram; para exemplificar anotamos aqui as seis primeiras: São Pedro de Alcântara (Catedral), Cz$ 82.033,50 – São José de Itaipava Cz$ 41.487,60 – São Norberto (Presmonstratenses), Cz$ 27.893,70 – Santa Teresa (de Teresópolis), Cz$ 22.907,00 – Santo Antônio (Alto da Serra, Frei Leão, OFM), Cz$ 15.300,00 – Sant’Ana e São Joaquim (Cascatinha), 14.000,00.

Um aspecto muito admirável na vida de Dom Manoel é que ele, à imitação de São Francisco de Sales, parecia mover-se só por Deus. E assim, enquanto, aparentemente, de 1949 a 1956 mais se interessava em construir o Seminário, Dom Manoel realizou obras importantíssimas na Diocese. Alguns exemplos: Criação de 5 Paróquias: Nossa Senhora das Graças de Agostinho Porto (01/10/1950); São Pedro, de Pedro do Rio (13/05/1951); Santa Teresinha, Parque Lafaiete, Duque de Caxias (28/03.1952); Nossa Senhora da Conceição de Vila São Luís, Duque de Caxias (28/08/1955); São Mateus e Édem, São João de Meriti (23/09/1956).

Outras realizações: no dia 31 de dezembro de 1952, Dom Manoel deu ao seu já cansado Vigário Geral a ordem de construir uma grande Igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário no local onde trazia uma capelinha, no centro de Petrópolis; Monsenhor Gentil obedeceu, como sempre; recuperou a saúde e construiu a grande Igreja do Rosário que mudou a paisagem da Fé, em Petrópolis. Mais: no dia 06 de janeiro de 1953, reúne-se com leigos e decide fundar a Faculdade de Direito, que em 06/03/1954 começou a funcionar uma casa no bairro do Retiro; em 10/12/1955 adquiriu o prédio do antigo “Palace Hotel”, onde passaram a funcionar as “Faculdades Católicas de Petrópolis, que a 10/03/1962 tornaram-se Universidade Católica de Petrópolis.

Terminadas as referências ao trabalho, ao entusiasmo e aos sofrimentos de Dom Manuel na construção do Seminário, seja o “finis coronat opus” deste breve esforço a recordação de três dias de grande alegria na vida do Fundador.