Imitação dos Santos

Na assembléia dos santos vós sois glorificado e, coroando seus méritos, exaltais vossos próprios dons.

Nos santos e santas ofereceis um exemplo para a nossa vida, a comunhão que nos une, a intercessão que nos ajuda.

Assistidos por tão grandes testemunhas, possamos correr com perseverança, no certame que nos é proposto e receber com eles a coroa imperecível, por Cristo Senhor nosso.

(Prefácio dos Santos I)

Um dos pontos fundamentais da doutrina do Concilio Vaticano II é o destaque dado à vocação universal à santidade, de cada um em seu próprio estado de vida. Com efeito, colhe-se da Sagrada Escritura o convite que Deus faz ao seu povo a que seja santo:

"Iahweh falou a Moisés e disse: Fala a toda a comunidade dos filhos de Israel. Tu lhes dirás: Sede santos, porque eu, Iahweh vosso Deus, sou santo." (Lv: 19, 1s)

Jesus, ao expor seu evangelho como "regra de vida" aos seus discípulos no "Sermão da Montanha", afirma que não veio revogar a Lei, mas antes, veio dar-lhe pleno cumprimento (cf. Mt 5,17) e indica que os discípulos devem praticar a Lei e ensinar aos outros a praticá-la (cf. Mt 5, 19).

Contudo, não se deve entender, a partir disso, que a santidade consista em, diante dos mandamentos, exclamar com o jovem rico: "Mestre, tudo isso eu tenho guardado desde a minha juventude." (Mc 10, 20)

No cristianismo a perfeição, a santidade, não está caracterizada pelo mero cumprimento de normas morais, até porque essa não é a característica essencial da fé cristã. De fato, o cristianismo não é um moralismo ou um conjunto de normas comportamentais que regem a vida de um "seleto grupo de eleitos-puros".

O cristianismo é caracterizado, essencialmente, pelo encontro pessoal com Jesus Cristo que chama o homem a segui-lo (Verbum Domini, 72) e que, em Si mesmo, revela o homem a sua mais profunda humanidade que só será perfeita e plena em Cristo, quando o homem se une a Ele.

Para o cristão a Lei não está contida em tábuas de pedra, a Lei tornou-se Pessoa (Verbum Domini, 54).

Jesus Cristo é a nova Torah, a Palavra, o Verbo de Deus que faz viver, que gera vida e vida plena.

Só a partir do encontro pessoal com Ele com uma disposição sincera de segui-Lo no amor e para o amor, que faz dom de si mesmo, é que podemos tender para aquela "medida alta da vida cristã ordinária" (Novo millennio ineunte, 287-288): a santidade.

Desse modo se cumpre as profecias do Antigo Testamento, nas quais falava Deus pelos profetas de que aconteceria que Ele mesmo inscreveria a Lei no coração do homem pelo Espírito derramado sobre toda a face da terra.

Em Cristo, recebemos a força do Espírito Santo para viver o amor em plenitude, cumprir a Lei.

Assim, santidade não é fruto de um trabalho pessoal individual a que alguém se propõe; é, antes, docilidade ao Espírito Santo que gera Cristo em nós para a glória do Pai; é colaboração livre da nossa vontade com a graça de Deus.

Na busca pela santidade autentica, a única meta almejada é Deus, tudo é por Ele e para Ele. O que não é assim, é uma tentativa de construção pessoal, é fechamento e ilusão, fruto de vaidade.

Antes de se tratar da imitação dos santos, é preciso compreender o que seja o significado real da palavra santo.

Na Sagrada Escritura, santo é Deus; com esta palavra, descreve-se em primeiro lugar a natureza do próprio Deus, o seu modo de ser muito particular, divino, que é próprio só d’Ele. Só Ele é o verdadeiro e autêntico Santo no sentido original da palavra.

Assim, tem-se o "sede santos, porque eu, Iahweh vosso Deus, sou santo". Só Deus é santo e é fonte de toda a santidade, qualquer outra santidade deriva d’Ele, é participação no seu modo de ser, é fruto da intimidade com Ele. Disto mesmo resulta a associação entre santo e consagrado, uma vez que consagrar é inserir algo na intimidade de Deus para pertencer a Ele de modo total, completo, imediato e radical.

Uma vez consagrados pelo Batismo, inseridos em Cristo Senhor, todo cristão é chamado por Deus à medida alta da vida, à santidade. Santidade que é reproduzir no mundo a face de Cristo, o Verbo que desposou a humanidade com sua encarnação, crucifixão e ressurreição.

Todo cristão é chamado a encarnar o Evangelho de Jesus em sua vida, ser um com Ele a fim de "ser perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito" (Mt 5, 48). Toda a conduta moral deve nascer do encontro com Cristo Senhor.

Os santos são aqueles que verdadeiramente viveram a Palavra de Deus porque se deixaram modelar por ela.

Portanto, são aqueles que nos precedem na posse da beatitude eterna e que nos ajudam pelo exercício da caridade fraterna com sua intercessão constante em nosso favor, com o testemunho de sua vida e com o seu percurso espiritual legado a Igreja.

A veneração dos santos e sua memória não podem, de forma alguma, estar reduzidas a narração dos seus exemplos.

"É, pois, uma grande vergonha para nós outros servos de Deus, terem os santos praticado tais obras, e nó queremos receber honra e glória somente por contar e pregar o que eles fizeram." (São Francisco de Assis, Admoestações: 6)

O culto aos santos, além de manifestar a unidade da Igreja no Espírito pelo exercício da Caridade fraterna, deve ser, para o cristão, lugar de encontro com o próprio Cristo Ressuscitado que passou pela cruz e que fez daquele homem ou daquela mulher testemunha da sua ressurreição gloriosa para seu tempo, anunciando o que viu e ouviu; o que com seus olhos contemplou; o que com suas mãos tocou e o que nele foi tocado e transformado pelo Verbo da Vida (cf. IJo: 1, 1ss).

Quando veneramos um santo, contemplamos nele a realização da obra nova que Deus mesmo começou, colhemos o fruto da cruz de Cristo: uma vida ressuscitada n’Ele e para Ele no amor.

De fato, cada santo constitui um raio de luz que brota da Palavra de Deus como resposta de Deus para o seu tempo. Santo é aquele que aceita o convite de Deus para a aventura de deixar Deus fazer surgir uma obra nova; estabelecer um caminho no deserto da história; fazer correr rios de vida e salvação em lugares ermos (cf. Is 43,19).

A vida de cada santo é uma escola de santidade a qual somos convidados a ingressar para realizarmos uma hermenêutica viva e eficaz da Palavra de Deus na nossa vida (Verbum Domini,49) pela imitação da docilidade ao Espírito na entrega da vida inteira pelo Evangelho do Senhor, numa constante conversão até que cheguemos a plenitude da estatura de Cristo.