Estar do lado dos que sofrem

Faze justiça aos pobres e necessitados (Pr 31,9)

Cada vez que dentro do Povo de Deus alguém é convocado para servir o Senhor, descobre no coração d’Aquele que o chama uma especial sensibilidade pelo pobre.

Quando o povo de Israel sofria no Egito, Deus enviou Moisés porque chegara aos seus ouvidos o clamor daquela gente há tanto jazia massacrada por uma escravidão multisecular. O coração de Deus se comove diante do sofredor, a tal ponto que ao assumir o Verbo Eterno a nossa pobre carne mortal, quis também Ele identificar-se aos pequenos, aos humildes, aos últimos e sofredores. Sua atitude parece dizer-nos: Deus está do lado daquele que sofre. Por isso mesmo declara como bem-aventurados os que são marcados pelas dores da pobreza, da aflição, da misericórdia, da luta pela paz, da perseguição, etc.

Deus gosta de ser servido nos pobres: «tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber…». Ele não se importa em identificar-se com os últimos de nossa sociedade. Chama-os de amigos, serve a mesa para Eles, convida-os para o Banquete nupcial do Cordeiro.

Só serve verdadeiramente a Deus quem possui os seus mesmos interesses. Ter os sentimentos de Cristo em nosso coração significa deixar envolver-se por um amor efetivo e afetivo pelo pobre e o injustiçado. A começar pela maneira de considerá-los: Jesus os considera felizes, bem-aventurados. Portanto, o servo de Deus se posiciona diante deles com uma postura completamente diferente daquele que faz algum favor. Ao contrário, ele se reconhece favorecido por Deus por poder estar cercado dos preferidos de Deus. Lutar diante dos homens pela sua causa é, de algum modo, combater as causas de Deus. Tomando sempre o cuidado de não manipular os pobres a nosso favor, para que nos vejam bonzinhos. Como lembrava o grande S. Vicente de Paulo, eles são nossos patrões, nossos senhores e nós, seus humildes servos. A atitude do cristão diante do pobre é a mesma do Senhor: a de humildes servos. Assim, Nosso Senhor, abaixou-se. Sendo Ele grande, inclinou-se para servir os pequenos. Quando nós o imitamos, tornamo-nos grandes como Ele, aprendemos a sua sabedoria. Desse modo fez justiça, usando de profunda misericórdia. Justiça e misericórdia juntas manifestam a grandeza do agir de Deus em favor do homem.

Eu e você não podemos fazer verdadeira justiça se não somos capazes de abrir o coração numa atitude de profunda misericórdia, se não somos capazes de acolher o outro com a sua miséria.

Assim Cristo nos ensina que o fazer justiça é aceitar carregar o outro com seu peso e seus pecados até o ponto de abrir os braços para a cruz—a dor, a luta, os problemas, as dificuldades—que se apresentar. Só faz de verdade justiça quem é capaz de assumir o outro na sua grandeza e no seu nada, sem nenhum interesse, como o Cristo que na cruz realizou a justiça definitiva de Deus em favor dos homens.

Talvez, Senhor, tenha-me acostumado ao espetáculo triste de tantas misérias ao meu redor e, por isso, continuo surdo ao teu apelo. Meu Senhor, que eu abra os olhos e os ouvidos para ver-te e ouvir-te naquele irmão sofredor que vem a mim de modos tão diversos e, assim, acolher o teu chamado.