Chamados à partilha

Reparte teu pão com o faminto (Is 58,7)

Certa vez, Jesus, ao perceber uma enorme multidão que o seguia, sedenta da Palavra de Deus, fez notar aos seus discípulos que não podiam despedir aquelas pessoas sem oferecer-lhes alimento para o caminho.

Faz aos apóstolos um convite: «dai-lhes vós mesmos de comer» (cf. Mt 14,16) . Aqueles homens e nós, num instante, tomamos consciência de que as pessoas esperam muito mais de nós do que, de fato, podemos oferecer-lhes.

Talvez tenhamos a tentação de hesitar diante de certas exigências e, assim, o Senhor nos diz, como aos apóstolos: «você deve dar aquilo de que necessitam».

O segredo é o mesmo do Evangelho: cinco pães e dois peixes! Era tudo o que naquele instante eles tinham, mas também era tudo o que o Senhor precisava porque para Ele não contava a quantidade daquilo que possuiam, mas algo que ia além do possuído: a generosidade em repartir.

Muitas pessoas, ao pensar em acolher o chamado divino, titubeiam ao considerar a escassez de seus meios, de suas qualidades, de seus dotes pessoais. Esquecem-se que Deus não precisa de nossos meios, mas quer precisar sim de nossa coragem de entregar tudo – quase nada – que temos.

Ao repartir o que temos e o que somos com os demais fazemos a experiência de uma alegria que não encontra obstáculo, precisamente porque é livre.

Aquele que rejeita repartir o que tem, mostra-se inapto para o Reino de Deus porque não possui a liberdade mínima que ele exige: ser livre para entregar-se.

Repartir os bens, repartir o pão não é somente um gesto de solidariedade com o irmão que sofre, é também expressão daquilo que somos, de como nos compreendemos e de como compreendemos os bens dessa terra e os demais. É manifestação de uma sólida consciência de que os bens criados são relativos e, portanto, devem ser colocados, também eles, a serviço do Senhor.

Por outro lado também, essa atitude revela a compreensão profunda de que não se está sozinho neste mundo e que não podemos viver à margem dos demais. A humanidade está misteriosamente unida n’Aquele que lhe deu a existência como presente.

A solidariedade que o Reino exige é fruto, por um lado, da certeza de que a humanidade é una e que, portanto, quando um irmão sofre, todos os homens sofrem.

Por outro lado revela também a fé naquelas palavras fortes do Evangelho: «a mim o fizestes» (cf. Mt 25, 40).

Repartir o pão, partilhar a vida são gestos profundamente relacionados dentro da vocação pois se trata de devolver a Deus, na liberdade, aquilo que Deus nos deu, num sentido de profunda gratidão e reconhecimento.

Quem não aprendeu a partilha, não sabe nada da fé porque não aprendeu aquilo que lhe é essencial: amar como Jesus, amar sem medidas.

Ó Pai, ao escutar o teu chamado não quero simplesmente buscar minha satisfação pessoal. Quero sim recordar que da generosidade da minha resposta dependem tantos irmãos famintos de pão e, sobretudo, do pão do céu, oferta do corpo e sangue do teu Filho amado. Que repartindo o pão eu aprenda, Pai de amor, a partilha de tudo o que me deste, e me deste tanto, para enriquecer a todos os que me estendem a mão em sua indigência.