Chamados à missão

A quem enviarei?… Eis-me aqui, envia-me (Is 6,8)

O chamado é sempre missionário. Trata-se de um envio: ninguém se autocandidata, é convidado porque é necessitado, desejado.

Cada ser humano, chamado por Deus – e todos o são – sabe-se aguardado com ansiedade para uma colheita que espera braços fortes que a recolham.

Querer partir em missão pode ser um sonho que se acaricia por muito tempo na própria vida.

No entanto a missão não é quimérica; ao contrário, é uma realidade para a qual se requer a força dos braços e um grande desapego também de si mesmo e de seus próprios projetos, mesmo aqueles missionários.

Quando alguém decide entregar-se ao trabalho de Deus – e pouco a pouco vamos descobrindo que tudo deve se tornar uma trabalho de Deus –, percebe imediatamente que Deus o chama para trabalhar.

Aliás essa é a vocação primordial do ser humano – «ut operaretur» – assim diz o primeiro livro da Bíblia (cf. Gn 2,15).

O Senhor precisa de pessoas que queiram dedicar seu tempo, todo ele, como também suas energias para que a messe não se perca. E os campos amadurecidos se estendem não só nas chamadas «terras de missão».

Hoje o campo é vastíssimo e pode ser traduzido como família, ambientes de trabalho, de lazer, etc. O sentido do trabalho, da dedicação exclusiva e incansável, é indispensável para os que querem ouvir o apelo do Mestre.

É preciso, a seu exemplo, dispor-se a não encontrar tempo sequer para comer. É preciso decidir-se de verdade a seguir à risca aquele perder a vida que de vez em quando retorna nas páginas do Santo Evangelho.

A paga será certamente boa: uma parte aqui—o cêntuplo; mas só se verá verdadeiramente grande quando estivermos do outro lado.

O empenho na obra divina requer também o desejo de dar o melhor de si.

Se no mundo em que vivemos se conta tanto com a criatividade e profissionalismo das pessoas, nas coisas relativas ao Reino não pode ser diferente já que elas envolvem coisas muito mais elevadas que um bom salário ao final do mês: elas conquistam vida em plenitude para muitos que não conhecem a misericórdia do coração de Deus.

Por outro lado a resposta supõe desapego pois «o espírito de pobreza, de desprendimento dos bens terrenos, redunda na eficácia do apostolado» (S. Josemaría, Forja, 809).

Mas talvez, o desprendimento mais eficaz e necessário é aquele de aderir de coração íntegro ao projeto de Deus que vem comunicado por mediações frágeis de homens de carne e osso como todos nós. A atitude de aceitação dos projetos missionários de outro que nos orienta e nos guia é bastante interessante na experiência espiritual do missionário.

Essa realidade tem fundamento em sua preocupação de fundo que deve ser a mesma de todos os missionários: deixar-se guiar pelo Espírito.

Em numerosas circunstâncias a voz de Deus se encontra ressoando quase sem resposta: quem enviarei? Quem irá por nós? (Is 6,8).

Ao passar pelas mais variadas situações, Senhor, ajuda-me a reconhecer que estás esperando uma resposta minha. Ninguém a poderá dar em meu lugar. Sei que queres enviar-me a mim. Quero, com a tua graça, assumir esse campo novo de trabalho que agora vejo surgir: os mesmos lugares que passo todos os dias!