Chamados a fazer o bem

Não nos cansemos de fazer o bem (Gl 6,9)

Aqueles que trilham sua história pessoal como resposta a Deus precisam aprender a pedir a Deus a graça de não se cansarem, pois o cansaço pode conduzir a uma rotina que é fatal para o amor.

Enquanto o amor procura renovar sempre todas as coisas, aquele que se cansou só encontra coisas velhas em tudo o que faz. Esse cansaço é o que poderíamos chamar mais própriamente de tibieza, «esse abcesso da alma» (Sto. Inácio de Loyola).

Aquele estado da alma bem representado pela atitude do dormir: entrar num sono profundo e não querer levantar-se dele. É preciso lutar contra essa tendência muito humana do acostumar-se mal e, inclusive, acostumar-se diante do maravilhoso mistério de Deus que vem ao encontro do homem. «Já é hora de despertar!» (cf. Rm 13,11).

Se não queremos ver o nosso amor morrer devemos perseverar nas obras boas, não nos cansarmos de fazer o bem.

Aqui não podemos confundir o fazer o bem com uma atitude filantrópica que todos os homens honrados podem fazer. A prática do bem que um cristão realiza vai além de uma mera ação exterior benéfica aos seus semlehantes.

Esse bem é inspirado por uma atitude de fé:

faz-se o bem porque se vê Deus. Portanto não se trata simplesmente de oferecer algum alívio, mas de entrega, de compromisso com a pessoa que se atende.

O pagamento a todo bem virá daquelas palavras consoladoras de Jesus:

«Vinde, benditos de meu Pai…».

Desse é mais difícil deixar entrar o cansaço, pois de modo algum visa-se a si mesmo, mas somente a Deus no outro.

Uma pergunta que nesse momento poder-se-ia fazer é a seguinte:

Que bem o outro espera de mim?

Certamente será aquele benefício que ele precisa, não simplesmente o que eu considero um bem para ele.

Quantas vezes prejudicamos o nosso irmão pensando estar prestando-lhe um serviço dedicado! Para fazer o bem ao próximo é preciso ter um olhar novo sobre ele, um olhar desinteressado, amoroso. Até mesmo nessas relações de ajuda deve-se estar atento a não buscar os próprios interesses. Nada mais contrário ao amor do que os interesses egoístas.

São essas intenções destorcidas que transformam o outro num mero instrumento de minhas compensações e me podem levar a esquecer que o outro tem uma história de vida que é sagrada, marcada pelo querer divino e à qual eu me encontro a serviço.

Enquanto não entendermos a mensagem do lava-pés—que tão enormemente escandalizou a Pedro—não seremos capazes de captar o significado pleno do serviço cristão que tem em Cristo o seu espelho e único modelo. Não é simplesmente o dar algo, é mais além:

Dar a vida, entrega de corpo e de sangue, é continuação da Eucaristia que incansavelmente a Igreja celebra em todo o mundo.

Não permitas, Senhor, que eu me canse de amar porque só assim não me cansarei de fazer o bem àqueles que me cercam e que me pedem diariamente que eu estenda-lhes as mãos! Não quero deixar de olhar meu irmão com olhar novo, com olhar de quem busca no outro o próprio Cristo que me diz:

Eu tive fome, tive sede, estava doente e preso…e não cansate de fazer-me o bem.