Aprendendo a discernir a voz de Deus

O Senhor chamou Samuel(1Sm 3,4)

"Iahweh chamou: ''Samuel! Samuel!'' Ele respondeu: ''Eis-me aqui!''"

No meio da noite, o jovem desperta, ouvindo o ressoar de seu nome. Não hesita em responder com prontidão. Está disposto a acolher o que o Senhor lhe quer propor.

Deus tem um plano para aquele moço que ainda está aprendendo a discernir a voz de Deus. Eli, o sacerdote, a partir de sua experiência, ajudará Samuel a discernir a voz de Deus.

Não basta simplesmente a disponibilidade para dar uma resposta, é preciso saber distinguir a voz daquele que chama e conhecer que passos concretos devem ser dados.

Como o jovem Samuel, você e eu precisamos aprender a servir-nos dos meios humanos para escutar o apelo do Senhor.

Que meios são esses?

As pessoas, os santos, o trabalho, os acontecimentos, a Igreja… a história de cada um. Deus tem prazer em usar esses meios humildes para falar aos seus filhos. Neles Ele se torna muito próximo, mas ao mesmo tempo: escondido.

«Ele se esconde entre as panelas» já alertava a grande Santa de Ávila, Teresa.

Mas ao perceber o chamado de Deus não se pode titubear, é preciso levantar-se do sono—muitas vezes profundo—e ir ao encontro da novidade de horizontes que Deus descortina diante dos seus amados.

Fundamentalmente o chamado é uma declaração de amor. Amor que passa pela escolha:

Escolhidos porque amados. Não é uma eleição fria, interesseira. Deus primeiramente chama para que estejamos com Ele (cf. Mc 3,14).

A vocação não consiste primeiramente em fazer coisas, percorrer mundos, cuidar disso ou daquilo. O primeiro fim da eleição divina é para que sejamos um tesouro para Ele.

Cada vocacionado pode escutar da boca do Senhor aquelas suaves palavras dirigidas à esposa do Cântico:

«Tu és meu tesouro».

A vocação é uma graça de pertença. Nela a pessoa se vê completamente envolvida, por isso a vocação exige sempre um amor que se disponha percorrer o caminho da maturidade até chegar a ser pessoal, real, apaixonado e totalizante.

Pessoal porque afeta à pessoa mesma e se dirige ao Senhor enquanto pessoa viva e não mero objeto de veneração.

Neste encontro de amor que marca o chamado a pessoa humana pode realizar a capacidade de amar com todo o coração. Esse amor é também real, ou seja, é o contrário de um amor teórico ou sentimental, ou simplesmente de fachada, de frases feitas… O amor real é aquele que se realiza na vida concreta de cada jornada, que leva a imitar e a entregar-se ao amado… Logicamente é um amor apaixonado.

Se pensamos bem que estamos falando do amor à pessoa de Jesus, nosso criador e redentor, o amigo que deu sua vida por nós, não podemos pensar nesse amor senão como uma verdadeira paixão de amor.

Um amor forte e entusiasta— «forte como a morte» (Ct 8,6)—, esse amor que é capaz de vivenciar a entrega também nos momentos difíceis e pode levar até mesmo ao heroísmo. Finalmente é um amor envolvente, totalizante. Deve estar no centro do coração e da vida.

Diante dele, todos os outros amores—família, amizades, encargos pastorais—se relativizam, encontram seu critério no amor do Senhor.

Senhor, que eu me disponha a ouvir a tua voz, sendo capaz de silenciar inúmeras vozes que me distraem do essencial e me roubam a alegria de estar totalmente à Tua disposição. Que eu procure entender que tudo o que me acontece faz parte dos apelos contínuos de Tua suave voz que me chama.